Wednesday, August 20, 2008


I spy

Hum, Columbo ataca novamente. Desta vez, avistei um sticker do correio na calçada ao lado do meu café favorito perto do campus da UC Berkeley. O meu último passatempo tem sido tentar decifrar o que essas pixações, rabiscos e sinais significam (se é que significam alguma coisa – please don’t spoil my fun).

Bom, esse sticker não era qualquer sticker do correio, era um de priority mail, utilizado geralmente para correspondências urgentes ou de alto teor de importância. O autor decidiu utilizar esse tipo de sticker ou porque queria transmitir a sua mensagem com uma certa urgência ou porque era o único pedaço de papel auto-adesivo que se encontrava por ali. Prefiro acreditar na primeira opção.

Vamos ao desenho:

I spy “Good Day” (Bom Dia)

I spy a palavra Halo (nome do vídeo game de ficção científica ou auréola em inglês)

I spy a palavra Hola (oi ou olá em espanhol)

I spy o símbolo anarquista (a letra “A” dentro da letra “O” que significa ordem anarquista

I spy o jogo da velha

I spy o primeiro coração, quase apagado no topo esquerdo;

I spy um segundo coração, gordinho, bem fofo embaixo com um desenho dentro. Seria a letra “Q” de question - pergunta - ou uma bebida com um canudo vista do topo ou simplesmente um círculo com um risco?

I spy um terceiro coração que também é engraçadinho e aparece pendurado num ponto de interrogação ou será um gancho?

I spy outras linhas que me lembram de prédios (sou paulistana, I can’t help it!) ou seriam degrais?

I spy outras linhas que me lembram de montanhas (sou filha de mineira, o que posso fazer?)

I spy, USP (again, sou paulistana da gema). Inicialmente estava escrito www.usps.com (United States Postal Service), mas por um acidente qualquer o canto do sticker ficou amassado e dobrou-se. Portanto virou www.USP.com. (Obviamente o endereço correto teria sido www4.usp.br, mas isso é só um pequeno detalhe.)

I spy o número 8 grifado. Segundo os chineses esse número dá sorte.

I spy o sinal de igual e um sorriso.

Então, o meu parecer é que se trata de um anarquista tímido e apaixonado que prefere utilizar a arte para se comunicar ao invés do telefone ou outros meios eletrônicos. El@ adoraria fazer uma pergunta mas não se atreve. Outra possível explicação é que há várias maneiras de interpretar os símbolos e qualquer um pode inventar a sua própria estória de acordo com a sua interpretação pessoal. Mas eu prefiro a primeira opção.

De qualquer forma é melhor eu me concentrar no meu cappuccino e no parquímetro que está prestes a expirar.

E você aí, what do you spy?

PS: I spy é um tipo de livro infantil com charadas visuais onde o leitor tem que encontrar e identificar objetos pequenos inseridos em uma foto.

Wednesday, August 13, 2008


O cappuccino (bittersweet)

Your mouth talked about the weather

But your eyes spoke loud and clear

(Na boca um beijo contido)

I almost tasted a drop of your heart in my cappuccino:

Bittersweet

Tuesday, August 12, 2008


A mulher, a nectarina e o seio

Até há pouco tempo não haviam muitas pixações no meu bairro. Mas tenho notado que de um tempo para cá muita coisa anda acontecendo na calada da noite. Muitas das pixações me parecem apenas uns rabiscos. Eu ouvi dizer que são assinaturas, mas para mim ainda assim parecem rabiscos. Eu não gosto desse tipo de pixação porque isso me lembra de cachorros fazendo xixi para marcar território. Vejo muito desse tipo de pixação em São Paulo que faz com que aqueles prédio cinzentos - que já são feios - pareçam mais feios ainda.

Mas eu gosto de pixações criativas. Hoje, por exemplo, eu vi um desenho de uma mulher feito com tinta rosa. O desenho foi feito numa dessas caixas de correiro na calçada. No desenho, o rosto de uma mulher com os seios expostos. No bico direito do peito, um sticker (aqui as frutas vêm com um sticker que diz de onde vem a fruta, se é orgânica ou não, etc.). No sticker dizia “ Tree ripe – nectarine - #4378 – Chile” (nectarina – amadurecida na árvore - número 4378 – Chile). Na axila esquerda um coração minúsculo, na direita um triângulo de ponta cabeça (símbolo associado ao movimento homosexual). Perto da caixa do correio, num container grande azul usado para reciclagem, estava escrito a palavra “evoke” (relembre).

O bico do peito; uma fruta. Achei bonito aquilo. A palavra “ripe” em inglês também significa no ponto certo para ser comido. Pensei nos seios como fonte de alimento, mas também como fonte de prazer. O encontro entre a boca e o bico do peito; o encontro entre a boca e uma fruta suculenta. A nectarina me fez lembrar da sensualidade que está presente no ato de comer. Comer bem é uma coisa muito prazeirosa: as cores, o cheiro da comida, o sabor. Eu nunca entendi essas pessoas que estão sempre contando calorias, preocupadas com aquilo que estão comendo, como se comer nada mais fosse que uma tarefa a ser cumprida, um ordeal. Não é à toa que o verbo “comer” é também usado para se referir ao ato sexual.

Estar vivo é estar em sintonia com os sentidos. Uma vida sem prazer é uma vida morta.


Já que estamos falando em seios e volúpia, quando eu estava em São Paulo recentemente, caminhando por uma rua no centro da cidade - se eu não me engano era a Rua do Arouche – avistei uma vitrine que me chamou a atenção. Tratava-se de uma livraria com uma exposição na vitrine. Eram vários manequins com os seios decorados com as coisas mais diversas. O meu favorito foi um mapa do seio com as seguintes palavras: amor, agonia, luta, sonho, prazer, maternidade e sensualidade. Genial!

Monday, August 11, 2008

Rosa meditativa

O coração é terra sem fronteira
Terra estrangeira

Ultimamente ando pelas ruas da minha cidade como um detetive. Não estou procurando nada em particular, mas ao mesmo tempo estou prestando atenção em tudo ao meu redor. Estou especialmente interessada em pequenos acidentes, coisas que as pessoas esquecem, perdem ou deixam propositalmente como presentes anônimos.

Ontem à noite fui caminhar e encontrei uma laranja. Era uma laranja enorme, bonita, quase perfeita. Ora, talvez a laranja tivesse simplesmente caído da sacola de alguém, certo? Mas eu sei que alguém colocou-a ali propositalmente porque a laranja estava aninhada num vaso enorme de flores, desses que decoram ruas movimentadas onde há lojas e cafés. Eu a fotografei.

Hoje de manhã a laranja ainda estava lá, mas à tarde quando voltei para fotografá-la à luz do dia ela havia desaparecido. Fiquei imaginando qual teria sido a intenção da pessoa que deixou a laranja e qual teria sido a reação da pessoa que a descobriu e decidiu levá-la.

Depois das minhas visitas de rotina no supermercado decidi passar no meu café favorito para um capuccino. No café há um bulletin board, um área onde as pessoas colocam todo tipo de anúncio: panfletos, cartões de negócios, anúncio oferecendo e procurando casa/quarto, aulas de dança, aulas de francês, palestras, shows, eventos políticos e muitas outras coisas. Mas o que me chamou a atenção hoje foi uma cópia da Rosa Meditativa, uma pintura de Salvador Dali. A cópia era quase do tamanho de um poster e estava lá competindo o espaço com o resto da papelada.

Olhei para aquela rosa enorme, vermelha e escandalosa contra o céu azul, com aquele casal minúsculo quase se confundindo com a paisagem e pensei: quem será que colocou esse poster aqui e por quê?

Eu nunca vou saber a resposta, mas de qualquer forma fiquei agradecida pela inspiração que tal surpresa me proporcionou.

Sunday, August 10, 2008


I lost my cool

Today I lost my cool, eu soltei os cachorros, rodei a baiana e botei pra quebrar. Fui ao Festival de Jazz de San Jose (San Jose Jazz Festival) para ver Summit, uma das minhas bandas favoritas que mistura elementos de jazz com música indiana. Colocamos as duas tirinhas no pulso: uma para o acesso ao back stage (camarim ao ar livre) e outra para o acesso a outras áreas do festival. Ficamos no back stage enquanto a banda se preparava e enquanto esperávamos a outra banda terminar de tocar. Cada banda toca por aproximadamente duas horas em vários palcos ao ar livre no centro da cidade de San Jose. As pessoas trazem cadeiras de praia ou assistem ao show de pé. Há também barriquinhas vendendo comida e bebidas por preços nada populares.

Pouco antes de Summit subir ao palco eu fui levar as crianças para comprar um gelinho. Notei que havia uma área em frente ao palco com aproximadamente cem cadeiras que estava bloqueada, mas nem pensei duas vezes porque normalmente nesse tipo de evento uma vez que se tem acesso ao back stage a área em frente ao palco está liberada. Mas para minha surpresa, quando voltei com as crianças e tentei entrar, fomos barrados no baile.

A mulher que estava tomando conta dessa área me disse que era só para V.I.P. (very important people), nesse caso pessoas que doaram $350 para o festival. Eu então lhe disse que sem os músicos essas pessoas não estariam ali e que os meus filhos tinham o direito de assistir o pai tocando. Eu disse também que se os meus filhos não eram v.i.p. (pessoas muito importantes) para o pai deles – que era um dos músicos - eu não saberia dizer quem mais era. Enfim, voltei ao back stage e tentei ver se alguém poderia me ajudar. Um rapaz veio e tentou interceder com a toda poderosa sem sucesso. A situação se tornou mais ridícula ainda quando avistei a esposa de um dos outros músicos já do lado de dentro. Pedi à mulher que me deixasse pelo menos entrar e perguntar a ela com quem deveria falar para resolver a situação, mas a toda poderosa vetou. Finalmente, descobri uma outra entrada e conseguimos entrar sem problema nenhum. Mas nessa altura do campeonato a minha filha já estava dizendo que nós não pertencíamos ali porque não éramos V.I.P.!

Tenho horror quando as pessoas se aproveitam de uma situação ridícula como essa para estabelecer uma relação de poder que na verdade é ilusória. Eu chamo isso da Síndrome de Metermaid. Trabalhar como metermaid deve ser super chato. Imagine passar o dia dirigindo num carrinho minúsculo e dando multa para todo o mundo. É como se algumas delas sentissem um prazer perverso em lhe dar uma multa mesmo quando você já está praticamente abrindo a porta do carro.

Outra coisa que me irrita profundamente é essa divisão entre os V.I.P. e os V.I.P.less (leia-se aqui os que têm grana e os que não têm): no avião, na educação, na saúde, em tudo. O valor da pessoa como ser humano é reduzido ao seu saldo bancário e assim cria-se a hierarquia dos cidadãos de primeira classe, de segunda classe, de classe miserável.

Historicamente músicos – especialmente músicos de jazz – nunca foram tratados com o respeito que merecem. Nesse caso, por exemplo, não ocorreu a essa mulher que sem os músicos não haveria festival nem mesmo se houvesse gente disposta a pagar os $350 para entrar. Em festas de bacanas ou convenções, os músicos estão ali como peças de decoração para proporcionar entertenimento para um pessoal que não está nem aí com a música. Eles são tratados como uma jukebox humana. Recentemente, K. tocou em uma convenção em Las Vegas onde a comida era incrível e a fartura mais ainda. Mas os músicos não puderam prová-la.

Numa outra ocasião, durante um casamento num dos hóteis mais caros de San Francisco, os músicos tiveram que comer em pé na cozinha. O menu consistiu de sanduíches de presunto em pão de forma branco, enquanto os convidados saborearam o banquete. Detalhe: era a passagem do ano. Eu me pergunto, como pode existir gente com tanto dinheiro e tão pobre de espírito?

Isso me lembra as empregadas domésticas no Brasil que não sentam na mesa para comer com a família e têm que se contentar com os restos. Mas isso já é outra história que dá pano pra manga, na verdade dá pano para um vestido inteiro.

Summit: George Brooks, Zakir Hussain, Kai Eckhardt, Steve Smith and Fareed Haque.

PS: For those reading this post on Facebook please check the original version in order to be able to watch the videos. Para quem estiver lendo esse post no Facebook por favor cheque a versão original para poder assistir aos vídeos.



video

Wednesday, August 06, 2008


Exílio transversal

Por conta de um exílio transversal

Fiquei com um pé no Atlântico

Outro pé no Pacífico

Água é água

Mas meu coração sente o peso

De tentar conter tanto oceano

Tuesday, August 05, 2008


intraduzível


desejo désir deseo desire verlangen

tento em vão traduzir o intraduzível

i should have warned you

é impossível me conhecer numa só língua

i can experience longing in English

mas saudade profunda só em Português


Jorge Drexler - Deseo



Sunday, August 03, 2008


Bajofondo

Passei a tarde de domingo num bosque de eucaliptos, sequóias e pinheiros vendo a banda Bajofondo. O show fez parte do Stern Grove Festival em San Francisco que durante os três meses do verão apresenta shows de dança e de música do mundo, jazz, gospel, ópera, música clássica, etc. Cada domingo é dedicado um estilo artístico diferente. O Stern Grove Festival foi o primeiro festival de música gratuito nos Estados Unidos.

O bosque foi comprado por Rosalie Stern em 1931. Ela o doou à cidade de San Francisco em homenagem ao marido, Sigmund. Sua intenção era de preservar o parque para oferecer concertos gratuitos para a população de San Francisco e arredores. A Orquestra Sinfônica de San Francisco fez a primeira apresentação após um ano. Em 1938 uma ong foi criada dando origem ao festival. Como cláusula principal, Stern estipulou que os shows devem ser gratuitos.

Mas para mim o mais legal do festival é ver gente de toda idade e etnicidade curtindo o espetáculo: mulheres de cabelo totalmente brancos, bebês de colo, jovens tatuados, punks. Vi pessoas com bandeiras da Argentina, do Uruguai, de Portugal (não me perguntem por que). Senti entre uma senhora argentina e uma família afro-americana. Ouvi eletro-tango e ao mesmo de vez em quando ouvia a família atrás de mim falando em russo. Adoro essa misturada toda.

Bajofondo foi eletrizante. Dancei quase o tempo todo. Adorei a mistura de tango, eletrônica e hiphop (especialmente quando fizeram um rap em espanhol e francês). Houve também uma parte acústica durante a qual eles tocaram o tema do Diários de Motocicleta.




video video

Friday, August 01, 2008


Semana Mundial da Amamentação

Meus pequenos mamíferos, que agora já nem são tão pequenos, mamaram com sofreguidão e às vezes com preguiça. Mamaram em camas, museus, sofás, praças públicas, carros, lojas, aviões, ônibus de viagem, piscinas e até na neve. O leite materno é o melhor alimento para o bebê e favorece o vínculo entre a mãe e a criança. O aleitamento materno também contribui para a saúde da mulher. Leia mais sobre os benefícios da amamentação aqui e aqui.

Na minha experiência a amamentação teve um aspecto muito prático também. Sempre gostei de viajar e fazer passeios mesmo que fosse perto de casa. O leite materno estava sempre fresquinho e morninho e eu nunca tive que carregar toda aquela parafernália de leite em pó, mamadeiras, água, etc. Ter que carregar fraldas já era mais do que o suficiente para mim.

Escrevi um poema já faz um tempo sobre seios, esse espaço mágico da geografia feminina que inspira emoções e funções tão diversas. Estou trabalhando em um projeto que combina poesia e música. Para os que quiserem ouvir esse poema musicado por favor visitem a minha página no myspace.

Árvore da vida

Árvore da vida

Carregada de cachos de leite

Sempre morno, sempre doce

Fonte de alimento

Para o corpo e para a alma

Podem ser pequenos

Delicados como pessêgos

Recatados, parecem esconder-se por detrás das blusas

Podem ser maiores

Robustos como meninas bem alimentadas

Ousados, tentam saltar para fora a cada oportunidade vã

Podem ser adulterados e até tatuados

Bico ereto, suplicante

Atrevido, insinuante

Saciando outras bocas famintas

Fonte de desejos

Que vem do corpo e da alma

Eles aquietam

Colo sereno

Eles inquietam

Lábios entreabertos

Obra de arte que desabrocha

Em total abandono

É nossa essa herança das deusas

Feb 28, 2006



Somos mamíferos. Amamentem seus filhotes.

Foto: Mãe e filha do artista plástico nipo-brasileiro Carlos Kubo atualmente em exposição no Espaço Cultural Infraero no Aeroporto Internacional de Cumbica.

Fotos do slide: Danilo em casa; Danilo - Fontana di Trevi, Roma; Naima, Step One School, Berkeley; Naima, Lake Tahoe, California.

Este post faz parte da blogagem coletiva iniciada por Denise Arcoverde.





Tô voltando…

Estou aqui fitando esse espaço em branco e tentando me libertar da minha própria cápsula do tempo. Quando era pequena eu acreditava que se eu prendesse a respiração e ficasse imóvel conseguiria me tornar invisível. Às vezes, eu segurava a respiração por tanto tempo que para voltar a respirar tinha que fazer um esforço consciente. Faz tanto tempo que eu não escrevo nada por aqui que fica difícil recomeçar. Mas quero voltar ao meu cantinho virtual, visitar outros blogs e reconectar com as pessoas que têm sido tão carinhosas comigo nos últimos dois anos. Sinto muita falta de escrever. Necessito abrir minhas portas e janelas para que minhas idéias não se atrofiem. Fiz muitas coisas desde abril, inclusive uma viagem de cinco semanas ao Brasil. Andei por aí, trabalhando e cuidando das crias, pensando na vida, passeando, fotografando alguns detalhes cotidianos. Aos poucos, voltarei a compartilhar um pouco do que me passa pela cabeça e pelos olhos por aqui...

Voltei do Brasil há uma semana e ainda estou com um pé no Atlântico e um pé no Pacífico. Àgua é água tanto aqui quanto lá. Mas às vezes o meu coração sente o peso de tentar conter tanto oceano.


Foto 1: Oceano Atlântico, Florinópolis, Santa Catarina.

Foto 2: Oceano Pacífico, Berkeley, Califórnia.