Sunday, April 01, 2007


Morte à distância

Hoje é também o aniversário de morte do meu pai. Faz dezesseis anos. Tudo aconteceu de repente, como uma brincadeira de mal gosto num primeiro de abril. O coração parou, assim, sem mais nem menos, um ônibus, na véspera da Páscoa.

E eu só fiquei sabendo vários dias depois. Decidiram não me telefonar para me proteger. Um amigo mexicano que estava visitando o Brasil quando o meu pai faleceu se encarregou de me dar a má notícia quando regressou de volta aos Estados Unidos. Ele foi me buscar no trabalho. Chegamos em casa e eu preparei um chá. Sentamos no sofá e ele me disse, tengo notícias... tu papá. Eu completei instintivamente, se mureo. Depois ele se foi e eu fiquei só, no meu apartamento minúsculo, me sentido como se alguém tivesse me dado um murro no estômago. Não quiz telefonar para nenhum amigo. Não quiz acordar, nem incomodar ninguém. Acordei cedo no dia seguinte, tomei meu café e fui para a universidade fazer uma das minhas provas finais daquele semestre. Contei para várias pessoas, e cada vez que contava era também uma forma de repetir para mim mesma que o meu pai estava morto. Um amigo francês disse courage quando nos encontramos na fila do Caffe Strada à espera dos nossos lattes. Em junho finalmente consegui ir ao Brasil. Havia um vazio na casa e ainda assim era como se a qualquer momento ele fosse entrar pela porta.

Esse é um dos preços de morar no exterior. É verdade, para morrer basta estar vivo, como diz a minha mãe. A morte de um ente querido é uma experiência quase surreal quando estamos a milhares de quilômetros de distância. Não há tempo para velórios e funerais. É quase como um sonho, um presságio, um estado nebuloso, uma espécie de delírio.

Recentemente, li um livro excelente da escritora americana Joan Didion chamado O ano do pensamento mágico. No livro, ela narra a sua experiência de grief, uma palavra inglesa para a qual não encontro tradução adequada para o português. Nesse contexto, significa muito mais do que luto, significa o processo e os vários estágios que alguém experencia quando perde uma pessoa amada. O seu marido com quem estava casada há trinta anos morreu de um ataque cardíaco fulminante enquanto estava se preparando para jantar.

Em várias passagens no livro, ela repete:

A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente.”

Pois é, morando tão longe do Brasil eu também me indago sobre a minha própria morte. Quando chegar a minha hora, o que vai acontecer? Mesmo depois de morta não quero dar trabalho, dar despesa. Há pessoas para as quais é importante ser enterrado na terra natal. Outro dia li nas notícias que houve um incêndio terrível no Bronx, em Nova York. Morreram muitas pessoas de duas famílias do Mali. Uma das famílias decidiu transladar os corpos. Mas para quem tem família e se sente conectada com vários paises como eu isso não faz sentido. Penso que talvez seja melhor ser cremada e ter as minhas cinzas espalhadas um pouco no Brasil, um pouco aqui e um pouco em algum lugar da Europa. Um adeus à “E la nave va” de Fellini, mas sem a pompa. Para quem nunca viu o filme, a estória se passa em um navio onde um grupo de pessoas está se preparando para dispersar as cinzas de uma cantora. Pode parecer mórbido, mas não é. É apenas uma questão prática que provavelmente não passa pela cabeça das pessoas que moram no mesmo lugar que suas famílias de origem.

Estou tentando fazer as pazes com os meus medos. It is a gift of time. Um presente do tempo, um privilégio dos anos vividos. Sempre tive horror à cemitério. Mas descobri um antigo, muito bonito, perto de casa. Hoje fui visitar. Qualquer dia eu conto mais.

Mais sobre o meu pai aqui.

Foto: tirada hoje no Mountain View Cemetery, em Oakland, Califórnia.



8 Comments:

Anonymous Ursula said...

Qdo a gente mora longe a gente não pode se despedir...Mas pq se despedir? O corpo não diz nada. As pessoas q amamos continuam vivas em nossas lembraças, em nossos corações. Nós nos tornamos um pouco de todas as pessoas q amamos. E desse modo as pessoas vão se tornando eternas. Vamos levando um pouquinho de cada um com a gente.
Beijos querida.

4:02 AM  
Anonymous Cris said...

Regina,
Eu gostei de me despedir do meu pai. Foi tudo muito lento, muito doloroso, mas ele teve tempo para nos preparar e nos deixar pouco a pouco. Ele ficou doente e deu tempo. É diferente, obviamente, quando a pessoa morre subitamente, como foi o caso do teu pai.

Por outro lado, durante anos eu não conseguia dormir bem à noite pois, ao longo da doença dele, freqüentemente éramos acordados com sobressaltos, minha mãe muito jovem, fragilizada (também um tanto despreparada), ofegante, dizia "acordem, o pai está morrendo, o coração está parando". Essas palavras ficaram tão marcadas que eu sonhei uns bons 15 anos com isso.

Me aterroriza pensar que eu posso deixar as meninas de um minuto para o outro. A finitude me apavora, tenho que confessar.

Imagino que a morte do teu pai deve ter sido muito difícil para você. Os rituais funerários têm uma finalidade importante. O interessante (de um ponto de vista cultural) é perceber que a tendência aqui no BR (e em outros países) é de se distanciar cada vez mais do corpo. Parece que as pessoas não vêem a hora de ver seu ente querido enterrado. Como se, nesse ímpeto, pudessem enterrar a dor. Quem dera.

Tem um livro bem interessante sobre a morte, morrer, de um ponto vista sócio-cultural que é de um pensador alemão chamado Norbert Elias. É bem fininho e goes right to the point. Me ajudou muito, se quiser eu procuro aqui e te envio o título. Aliás, eu gostaria de ler o livro q vc mencionou. Já é a 2a vez q vc fala dele. Acho legal a gente expurgar alguns sentimentos que incomodam muito.
:-)

bjkas,
Cris
P.S. Escrevi um post lá no bloguinho, qdo puder, dá um pulinho lá.

5:01 PM  
Anonymous anita said...

regina,

puxa, queria ter tempo para falar com você mais sobre a "morte". Não é morbidez não. É que também penso muito na mesma questão, e também muito pelos mesmos motivos que você pensa - viver no exterior. Só tive uma tia que faleceu lá, mas mesmo assim ainda tenho a sensação de que nunca aconteceu. A casa vazia é terrível de encarar.
Mas diferente de você, gosto de cemitérios. Quando vou a Uberlândia e visito os túmulos do meu avô e bisavô, aproveito para passar horas andando pelas quadras, vendo as fotos e lendo os dizeres. Daí dou asas à imaginação, invento vidas que de fato existiram...

bem, sei como é triste perder um ente querido, e sei como é estranho estar longe. Sinto muito

beijos

5:07 PM  
Blogger Regina said...

Ursula,

Obrigada pela mensagem carinhosa. A unica coisa e' que quando nao estamos presentes para conviver com a dor da perda entre os familiares, de certa forma e' como se nao tivesse acontecido. E' estranho.

Mas voce tem razao, as pessoas continuam vivendo em nossas lembrancas.

Bjs.

Regina

11:43 PM  
Blogger Regina said...

Cris,

Imagino como deve ter sido dificil para voce, sua mae e a sua familia ver o seu pai morrendo aos poucos. Nao sei o que e' pior: o choque da morte subita ou ver o ente querido se esvaindo.

Eu passei por algo parecido apos a morte do meu pai. Fiquei com medo de perder alguem, minha mae ou meu marido, de morte subita. Uma noite eu acordei e o Kai estava dormindo tao quieto que parecia nao estar respirando. Eu me assustei e coloquei a mao no pescoco dele para ver se havia pulso. Ele acordou super assustado. Tadinho! O trauma faz a gente agir irracionalmente.

Eu tambem tenho medo de morrer antes de acabar de criar os meus filhos. Fiquei com mais medo da minha mortalidade depois que virei mae. O bom e' que sei que nao vou fazer nenhuma besteira.:-)

Voce tem razao, os rituais funerarios tem uma finalidade importante. They help bring closure. Interessante o que voce falou sobre o ponto de vista cultural. Aqui eles levam mais tempo para enterrar as pessoas e eu nunca me acostumei com isso. Tambem porque aqui eles embalsamam o corpo quando vai demorar para enterrar. Sempre achei isso estranho, como uma violacao do corpo. Qualquer dia escrevo sobre isso.

Gostaria sim de saber o titulo que voce mencionou. O livro da Joan Didion e' muito bom. She is very articulate and writes beautifuly.

Amanha eu vou la no bloguinho. Que bom que voce esta quase terminando a dissertacao e logo vai poder voltar para o seu "cantinho." Sinto falta...

Bjs.

Regina

11:52 PM  
Blogger Regina said...

Anita, querida

Tambem acho importante falar sobre a morte porque e' uma parte natural da vida. Morar no exterior faz a gente pensar mais sobre isso.

Eu finalmente perguntei ao meu marido o que ele quer que eu faca no evento dele morrer antes de mim. Eu tinha de saber se ele queria ser enterrado, cremado e onde. Outro dia escrevo mais sobre isso.

Eu tinha muito medo de cemiterio quando era menina. Eu achava que as almas estavam vagando por ali e que, a qualquer momento, eu ia sentir a presenca de alguem. Curiosamente, eu ja senti uma "presenca" varias vezes, mas nunca em cemiterios.

Esse cemiterio aqui perto e' muito bonito, com alas espacosas e muito verde. Tb vou fazer um post sobre isso qualquer outro dia.

Acho que agora estou me sentindo mais confortavel em cemiterios. Deve ser a idade.:-)) Eu tb gostava de ver as fotos, de ler as datas de nascimento e morte e de imaginar as vidas dessas pessoas. Sempre gostei de anjos tb. Foi sempre um misto de fascinio e medo.

Da proxima vez que eu for ao Brasil vou tentar ir a um cemiterio. Quero caminhar, tirar fotos e continuar fazendo as pazes.

Bjs.

Regina

12:01 AM  
Blogger Lucia Malla said...

Uma vez, uma amiga me disse que geralmente nosso desejo de onde queremos ser enterrados reflete o local que mais nos sentimos em casa. Acho q eu concordo.

8:28 AM  
Blogger Regina said...

Lucia,

Isso complica a minha situacao porque eu me sinto em casa em varios lugares. :-)

Beijos,

Regina

2:20 AM  

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