Monday, January 15, 2007

Happy Birthday, Dr. King!
Mas a luta continua...

"O que me preocupa não é o grito dos violentos. É o silêncio dos bons."
15 de janeiro de 1929, Atlanta, Georgia – 4 de abril de 1968, Memphis, Tennessee

Hoje é o aniversário de Martin Luther King, feriado nacional. O Movimento pelos Direitos Civis liderado por Dr. King trouxe muitas mudanças para a sociedade americana, em particular para os afro-americanos. Mas eu acho que King ficaria muito desapontado ao ver as condições de algumas comunidades nas grandes cidades americanas.

É no carro que eu acabo tendo conversas sobre assuntos sérios com os meus filhos. Não acontece de propósito. Na verdade as perguntas deles geralmente me pegam desprevinida. Não é nada fácil falar sobre coisas como racismo e classismo sem perder a noção do trânsito. Mas assim mesmo eu tento, porque esses momentos de curiosidade dos meus filhos são verdadeiras oportunidades de aprendizado.

Outro dia eu estava levando o meu filho para ensaiar com a sua banda no estúdio que o Kai aluga. O estúdio fica em um bairro que pode ser considerado um gueto. Há uma liquor store, uma espécie de bar, na esquina onde não há nada saudável para comprar. Nessa mesma esquina sempre há adolescents com essas roupas enormes que fazem os meninos andarem como se estivessem se arrastando jogando conversa fora. A impressão que me dá é de que nenhum desses jovens têm alguma perspectiva na vida.

Vez por outra as minhas crianças ouvem pessoas falando umas com as outras num tom que elas não estão acostumadas. Elas ficam com medo. Eu acho que o que choca mais os meus filhos não é o fato de ser um bairro pobre, mas sim a presença de pessoas alteradas e a energia deprimente do lugar. O que é também chocante para os meus filhos é o fato de eles não verem pessoas brancas nesse bairro.

Isso me preocupa porque eu vejo diante de mim como o racismo começa a ser internalizado. Por exemplo, é triste ver que o meu filho tem medo de jovens afro-americanos quando eles estão usando essas roupas largas.

Enquanto estávamos dirigindo minha filha perguntou:

- Mãe, por que só tem brown people nesse bairro?

Para ela não há diferenças entre latinos, negros ou multiraciais como ela. São todos brown.

Eu respondi que era por causa do racismo que ainda existe na sociedade e que por isso muitas vezes brown people não tinham as mesmas oportunidades que white people.

Então ela fez uma carinha triste e falou:

- But I am brown!

Eu expliquei que não era bem assim. Eu falei que também existiam pessoas brancas que eram pobres e passavam necessidades e que haviam pessoas negras e latinas bem sucedidas. Falei também que tanto eu como o pai dela tínhamos tido a oportunidade de frequentar uma universidade e que por isso podíamos proporcionar uma vida melhor para ela. Em outras palavras, eu disse que não era a cor da pele dela que iria definer o seu futuro.

Ela então falou:

- Papa é famoso e papa é brown. E a mulher mais rica do mundo (Oprah Winfrey) é brown.

Eu fiquei pensando e se o pai dela não fosse conhecido e respeitado na profissão dele? Será que ela então passaria a internalizar um sentimento de inferioridade?

Eu também aproveitei a oportunidade para falar com os meus filhos sobre como é importante que as pessoas estabeleçam alianças com pessoas de outros grupos.

Eu contei para eles que na época do Movimento para os Direitos Civis nos E.U.A. havia também pessoas brancas que eram contra o racismo e lutaram junto com os negros para mudarem o sistema. Eu disse que sempre podemos e devemos trabalhar como aliados com outros grupos pela justiça social.

Acho muito importante enfatizar o papél do aliado porque na minha experiência morando aqui há muito tempo, eu já presenciei situações de muita hostilidade e desconfiança entre grupos distintos. Eu já ouvi casos de crianças negras confrontando professoras brancas com insultos. Eu também conheço pessoas brancas que têm medo de ir em bairros predominantemente negros. Eu acho fundamental cruzarmos a fronteira da raça.

Eu sempre digo para os meus filhos que o que cada pessoa quer é ser tratada com respeito e dignidade.

12 Comments:

Anonymous leila said...

Que linda essa conversa de vocês. Fiquei emocionada.

10:48 AM  
Blogger Regina said...

Leila,

Obrigada! Esse e' uma assunto bem delicado. Eu acho muito importante conversar com as criancas sobre isso. Ao mesmo tempo, eu sempre tenho que encontrar uma maneira de discutir esses problemas de maneira que eles possam entender.

Bjs e bom feriado pra voce,

Regina

12:36 PM  
Anonymous Cris said...

Regina,
Eu também gostei muito do teu post e da forma que você lidou com a questão do preconceito com as crianças.

Você viu "Crash", filme que ganhou o Oscar do ano passado? Fiquei impressionada, principalmente pelo filme mostrar que o preconceito está presente de diversas maneiras dentro de todos nós. Só que o mais legal do filme foi também mostrar o outro lado, i.e., que mesmo os mais preconceituosos são humanos e muitas vezes apenas reproduzem certos padrões de comportamento.

Acho que por tudo isso é essencial conversar muito sobre o assunto.
bjs,
Cris

1:17 PM  
Anonymous Elizabeth said...

Adorei a conversa, aqui tambem se tem problemas com racismo mas acho que não tanto como por ai. o problema maior aqui é pela religião então os arabes mesmo que não sejam muculmanos teem muitos problemas e é claro os ciganos que são todos tidos como bandidos e ladrões. Eu tambem estou sempre conversando com a minha filha sobre isto.
Sabe aqui filho de imigrante sempre será imigrante mesmo que como a Lotta seja nascida aqui e com pai sueco. Para quem não a conhece sempre a pergunta é:_ E voce menininha vem de onde?
Aqui não sendo sueco, branco e loiro é tudo cabeca negra. O sueco normalmente não fala de racismo em frente a imigrantes a menos que estejam bebados, mas quando estão entre eles o assunto normalmente é este.
Nas escolas todos tem oportunidades iguais mas já na hora de procurar emprego é comprovado que se voce é imigrante tem menas oportunidades. tenho pena das pessoas adotadas por familias suecas pois muitas dessas criancas não conhecem outra coisa que não seja a vida e cultura sueca mas na hora de enfrentar o mundo são tidas como imigrantes e por isto já soube de muitas que tiraram suas vidas.
É super dificil, mas o governo batalha muito contra o racismo e para que todos sejam tratados iguais. não sei se me entender acabei de acordar, rsrsrs.
Beijos

12:15 AM  
Blogger Regina said...

Cris,

Pois e', esse e' assunto bem delicado, mas eu tambem acho que e' fundamental falar com as criancas sobre isso.

Eu vi Crash. Achei excelente porque mostra tambem que o racismo e o preconceito esta em toda parte, nao e' somente um problema de brancos contra os negros. Ninguem esta imune. Por isso, acho extremamente necessario que se haja conversa sobre isso e que as pessoas construam aliancas com pessoas de outras racas e/ou religioes.

Bjs.

Regina

1:14 AM  
Blogger Regina said...

Elizabeth,

As coisas por aqui sao bem evidentes. Por um lado, eu acho bom porque facilita a luta contra o racismo quando o racismo e' tao discarado, ao contrario do Brasil. Mas por outro lado, eu acho tudo muito triste, muito segregado. Ha muita magoa, muita disconfianca e muita culpa mal articulada e nao resolvida.

Eu nao sabia que na Suecia era assim em relacao a filhos de imigrantes. O bom daqui e' que e' como no Brasil, se a crianca nasce aqui e' automaticamente cidadao americano. Na Alemanha e' como na Suecia. Eu acho ridiculo quando as pessoas se referem a jovens que foram nascidos e criados na Alemanha como turcos porque os pais vem da Turquia. Ora bolas, se eles nasceram na Alemanha e foram educados la, eles sao culturalmente alemaes embora sejam de origem turca.
O meu marido tb tem de lidar com isso o tempo todo. Ele e' cidadao alemao porque alem de ser nascido e criado la, a mae dele tambem e' alema. Mas sempre acontece que quando estamos num grupo de alemaes as pessoas perguntam como ele aprendeu a falar o idioma tao bem, mesmo depois dele ter acabado de dizer que nasceu e foi criado la. Eu nao tenho a minima paciencia e acho esse tipo de comentario super racista e rude.

Fico pensando como essa situacao na Suecia deve influenciar a Lotta.

Beijos,

Regina

1:23 AM  
Anonymous Alexandra said...

Regina,

seus filhos têm muita sorte de ter vc como mãe. Eu concordo plenamente com vc que temos que manter relações com pessoas de outras culturas e raças. Só assim aprenderemos que somos, no fundo, todos iguais e só o que queremos é uma vida de digna e um pouco de respeito.

É... o problema na Europa é que o conceito de nacionalidade não é baseado no lugar onde nasceu mas sim na ascendência. Isso vem da cultura dos povos germânicos (godos, saxões, francos...) que determinavam sua identidade pela ascendencia. Como esses povos eram meio nomades o lugar onde nasceu não importava, um godo era filho de outro godo e por aí vai. Mas quando os Europeus colonizaram meio mundo, o principio tinha que mudar pois senão nunca haveria o "canadense" ou o "americano" ou o "brasileiro". Então, o americano não era quem tinha pai americano mas sim quem tinha nascido na américa. Com a globalização e um aumento da imigração nos ultimos anos esses dois conceitos diferentes entraram em choque. Até 1994, por exemplo, o filho de um casal brasileiro morando na França era uma pessoa sem cidadania pois o Brasil só reconhecia como brasileiro uma pessoa nascida no Brasil e a França só reconhecia como francesa a pessoa filha de franceses. As leis estão mudando para que essa criança hoje possa ser brasileira/francesa mas a sociedade demora mais a mudar... Vai levar algumas gerações e muita educação...

Eu não me esqueço uma vez que estava no aeroporto em Toronto esperando o vôo para SP. Comecei a conversar com uma senhora muito educada que estava voltando com a filha pro Brasil. A filha tinha passado uns dois meses fazendo intercambio em Vancouver e a mãe foi visitá-la no final do tempo para as duas aproveitarem e viajar um pouco pelo Canada. Eu perguntei o que ela achou, quais cidades gostou mais. Ela disse que Toronto é muito interessante mas que ela gostou mais de Vancouver pois em Vancouver vc via mais "canadenses verdadeiros". Eu perguntei "como assim"?? Ela falou que em Toronto vc não vê muito canadenses verdadeiros, tem muito indianos, africano, gento de todo o lado mas não muitos "canadenses verdadeiros". Sei lá, fiquei meia surpresa pela observação. Em geral, nas partes do Canada onde morei não se faz a distinção entre "canadense naturalizado" e "canadense nato". Todos são simplesmente canadenses. Meus amigos canadenses ficaram meio chocados e sem enteder a observação da senhora quando contei pra eles.

O Canadá é uma prova que podemos sim mudar essa historia da discriminação. Até a década de 1960 a maioria dos imigrantes aceitos no Canada eram do norte europeu, existiam cotas máximas para pessoas de outras partes do mundo (america latina, asia, africa, oriente medio). Os judeus não eram aceitos na Unversidade McGill, por exemplo, e durante a guerra, quando o mundo se deu conta do que estava acontecendo nos campos de concentração da Alemanha nazista (ainda durante a guerra) o ministro da imigração foi perguntado quantos refugiados judeus o canada estava preparado a acolher, ele respondeu "none is too many". Mas as leis mudaram e o governo passou a fazer campanhas sérias contra a discriminação e sobre os aspectos positivos de uma sociedade multicultural. Criaram o conceito do mosaico, em vez do "melting pot", onde se valoriza a cultura de cada um. Hoje um dos âncoras do jornal principal da cadeia nacional de tv (a CBC) é um indiano de nome impronunciavel e um dos programas de ideias mais interessantes é conduzido por um grego de nome ainda mais impronunciavel. A governadora geral do canada (representante do chefe de estado, que é a Rainha da Inglaterra) é uma mulher negra e imigrante, cuja familia veio como refugiada do Haiti quando ela era criança. Isso mostra que podemos sim, uma sociedade pode mudar se o governo tratar a coisa de um lado positivo...

Mas é começando aos poucos, com as crianças, que se chega lá...

3:31 AM  
Anonymous Alexandra said...

Nossa! escrevi muito!!

3:32 AM  
Blogger oakleyses said...

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