Reinventando Babel Eu e meu marido nos conhecemos aqui, embora ele ainda estivesse morando na Alemanha. Na época nos dois já falávamos inglês bem. Eu não falava alemão, nem ele português. Todos os filmes de Herzog ou Fassbinder que eu tinha assistido no Instituto Goethe em São Paulo não me prepararam os ouvidos para a minha primeira visita à Alemanha. Eu me lembro de estar no apartamento ouvindo o meu então namorado conversando com os amigos em alemão. Mais uma vez eu me encontrava na mesma situação de quando cheguei nos Estados Unidos: captando apenas sons, mas sem entender nada ou quase nada.
Eu nunca pensei que seria possível viver uma relação tão íntima e intensa numa terceira língua. Além das diferenças culturais, tínhamos que traduzir as sutilezas do relacionamento através de um terceiro filtro. Para que chegássemos a nos conhecer foi necessário pegar um avião, ir até um outro país, estar no mesmo lugar por menos de uma semana e ter aprendido um outro idioma: o inglês. O lado positivo da situação é que nós dois estávamos no mesmo barco; nenhum tinha vantagem sobre o outro.
O engraçado é que por incrível que pareça, o alemão tem algumas palavras e expressões de origem latina e, portanto, parecidas com o português. Às vezes quando estávamos conversando e nos faltava a palavra em inglês, eu tentava a palavra em português ou ele em alemão. Na maior parte das vezes conseguíamos deduzir o que o outro queria dizer assim, numa mistura de contexto e associação cultura e linguística. Esse processo de dedução/associação entre os dois idiomas, português e alemão, ainda acontece quando estou conversando com algumas das minhas amigas alemãs.
Quando decidimos ter filhos eu sabia que ia falar com eles em português. Em primeiro lugar, porque o português é a minha língua materna. Sem a habilidade de falar e entender português meus filhos não teriam acesso à minha estória e às experiências que informam em grande parte a pessoa na qual eu me tornei. Tampouco teriam acesso a todo um universo cultural conectado com a língua portuguesa. Em segundo, eles não conseguiriam se comunicar com a minha família no Brasil. Por último, eu acho importante que os meus filhos falem outras línguas. Vivemos em um país que se orgulha do seu isolamento e cujo idioma é considerado língua franca no mundo, o que, na minha opinião, torná-se imperativo que as crianças aprendam que o mundo é muito mais vasto e interessante que um só país.
O meu marido começou a falar em alemão com eles quando eram bebês. Eu também quiz aprender alemão para ter acesso a uma parte da vida dele que aconteceu em alemão e a para melhor entender a sua cultura. Eu brinco que aprendi alemão por osmose. Entendo muito mais do que falo porque nunca estudei formalmente. Mas hoje em dia, consigo me comunicar com ele em parte em alemão. Ele também entende mais português hoje em dia, graças aos filhos, porque sempre ele me ouve falando em português com as crianças. Ele também fala francês, o que ajuda um pouco com o português.
Uma vez por semana nos encontramos com um grupo de cinco famílias para fazermos atividades em português. Algumas atividades são estruturadas, outras não. O importante é normalizar o uso da língua portuguesa e cultivar experiências positivas associadas à cultura brasileira. A intenção é também criar-se um contexto onde todas as pessoas no grupo falam o mesmo idioma. Dessa forma, a criança não se sente como parte da única família a utilizar essa língua estranha. Fazemos o mesmo do lado alemão. As crianças tomam aulas, as mães socializam e celebramos tradições e jogos infantis. No começo, era o meu marido quem levava as crianças ao grupo. Depois de um tempo, eu comecei a levá-las. Foi assim que eu aprendi alemão. Todas as mães no grupo são alemãs, exceto eu. Elas se comunicam o tempo todo em alemão. Com o tempo, eu fui aprendendo e hoje em dia consigo fazer parte do bate-papo.
Em casa, eu falo com as crianças em português, o pai em alemão (e um pouco em inglês), entre eu e ele inglês e alemão, e as crianças geralmente respondem em inglês. Às vezes quando estamos a sós eu e ele também usamos um pouco de francês, just for fun. Meus filhos também conseguem ler em português e alemão. É uma loucura quando estamos em lugar público, como num restaurante. As pessoas ao redor ficam tentando identificar que língua estamos falando e nós continuamos alternando de uma para outra.
É normal que as crianças respondam em inglês porque é a língua na qual se sentem mais à vontade e na qual se sentem mais competentes. Há também a pressão do meio ambiente e da escola. Mas o importante é que os pais não parem de usar a língua materna, mesmo que as crianças respondam em outra língua, nesse caso o inglês. Eu já vi muitas famílias que desistem de usar o outro idioma porque a criança só responde em inglês. O que acontece então é perda total da língua materna, a perda da identificação cultural com o país de origem dos pais e o rompimento nos laços afetivos com a família que reside no país de procedência dos pais. Muitas dessas crianças quando adultos tentam recuperar e reaprender o idioma. Alguns deles culpam os pais por tê-los negado esse direito.
Embora o ideal fosse que meus filhos respondessem no idioma no qual estão sendo falados, eu não exijo que eles me respondam o tempo todo em português porque não quero que eles percam o carinho pelo idioma e pela cultura brasileira. Conheço adultos que foram forçados a falar a língua dos pais quando eram pequenos e hoje em dia não a utilizam mais e nem sequer têm o mínimo interesse em transmiti-la para os seus filhos. Eu sei que os meus filhos sabem falar português porque sempre respondem em português quando estão falando com outros brasileiros aqui ou quando visitamos o Brasil.
Além do mais, no caso dos meus filhos, eles já lidam com três idiomas na família e aprendem espanhól na escola. Há muitas outras crianças por aqui numa situação semelhante, então para eles isso é completamente normal. Eles me ouvem conversando com a minha vizinha e com o pediatra que são mexicanos ou com a mãe da amiguinha venezuelana em espanhól, com o dono de restaurantizinho aqui do lado onde compramos bolinhos de batata em francês (no meu francês macarrônico, mas ainda assim). Como as línguas de origem latina têm muito em comum, e crianças são gênios líguisticos com cérebros que funcionam como esponjas, pular do português para espanhól ou francês é para elas quase natural. Por exemplo, a minha vizinha fala com eles em espanhól. Eu sei que eles entendem porque respondem de volta em inglês. Outro dia, o meu filho estava mostrando Titeuf, um desenho animado de um menino meio punk em francês no youtube para um amiguinho. O amigo não estava entendendo nada. Então o meu filho começou a "traduzir" para o amigo, que por sua vez perguntou como ele sabia francês. A resposta dele estava na ponta da língua: “eu não sei, só sei que sei.” Obviamente, isso não significa que os meus filhos são seres superdotados ou que sejam fluentes em todos esses idiomas, mas tenho certeza que se um dia decidirem se aprofundar em um deles não terão dificuldade alguma.
Ensinar um outro idioma é um dos melhores presentes que podemos dar aos nossos filhos. E nesse caso, não custa nada, já está em casa.
Arte: Sônia Menna Barreto, Casa da Cultura (via Google Images). Vale a pena clicar na imagem para melhor poder ver os detalhes.